24 outubro 2009

Misturando capoeira com candomblé, 'Besouro' é filme de ação sobre mito

Longa de João Daniel Tikhomiroff conta história de capoeirista lendário.
Produção teve direito a coreógrafo chinês para as lutas.

Amauri Stamboroski Jr. Do G1, em São Paulo



“Besouro”

, longa de estreia do diretor de filmes de publicidade João Daniel Tikhomiroff, mistura ação, drama e elementos de fantasia para recontar uma lenda oral bem brasileira – o capoeirista de corpo fechado que combate os poderosos.

A ação se passa em Santo Amaro da Purificação, município do Recôncavo onde nasceu a lenda do capoeirista, no começo da década de 1920. Ali, a comunidade de negros tenta se livrar do passado recente – havia passado pouco mais de 20 anos desde a abolição da escravidão, e em muitos lugares o trabalho assalariado dos negros não era muito diferente do regime em que se encontravam anteriormente.

O Besouro do filme é uma reinvenção de Manoel Henrique Porteira, que viveu até 1924. Consciente de sua condição, se preocupa em ajudar seu povo após a morte de Mestre Alípio, seu tutor na capoeira. Na tela, ele passa de lenda (ainda existem pessoas que relatam ter conhecido Manoel) a herói, enfrentando jagunços e o todo-poderoso coronel local. Ao seu lado se encontram os orixás, que lha dão poderes – como voar e ter o “corpo fechado” – e a capoeira, arte marcial afro-brasileira.

“Quis fazer o melhor filme de capoeira possível”, explica Tikhomiroff em uma conversa com a imprensa nesta terça-feira (20) em São Paulo. Com o auxílio de Huen Chiu Ku (apelidado de Dee Dee pela equipe), coreógrafo chinês discípulo de Yuen Wo Ping, com quem trabalhou em “Matrix” e “O tigre e o dragão”, o diretor pôde criar sua versão nacional de um longa de ação chinesa, substituindo o kung fu pela capoeira. Com seus cabos e plataformas, o ex-dublê transforma o Recôncavo Baiano em cenário de “O clã das adagas voadoras”.

Sem dublês

A seu favor, Dee Dee contou com o fato de os atores que interpretavam capoeiristas, como Aílton Carmo (Besouro) e Anderson Santos de Jesus (que interpreta Quero-Quero, seu amigo) serem professores da arte marcial. “Usamos poucos dublês – apenas em uma ocasião, para cenas filmadas a longa distância, para agilizar a produção”, explica o diretor.

Para as telas, os capoeiristas tiveram que fazer algumas concessões estéticas ao estilo de luta. “Ás vezes o Dee Dee pedia para chutarmos em um ângulo que não é comum da capoeira, ou para darmos saltos diferentes”, conta Anderson. “Mas ele sempre respeitou a gente, e ouvia quando dizíamos que não dava para ser feito. E o ‘temperinho’ dele foi essencial para o filme”, completa.
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Besouro voa pelo Recôncavo Baiano. (Foto: Divulgação)

Entre as dificuldades, Aílton lista “jogar capoeira no alto de uma árvore (a ‘capoeira ecológica’) e voar” – afinal, no papel de Besouro, ele passa boa parte do filme acima do solo. Em algumas cenas ele realmente penou. “O primeiro voo do Besouro foi bem difícil – os chineses que puxavam os cabos não podiam me ver, e eu me machuquei algumas vezes”. Correndo descalço muitas vezes em ruas de pedra, ele teve ajuda de uma peça fundamental cedida pela equipe de figurino:pés de silicone que evitavam o contato direto da sola com o chão.

O elenco principal é jovem e praticamente inexperiente em cinema. Além de Anderson e Aílton, atores como Flávio Rocha (o Coronel Venâncio) e Irandhir Santos (o capataz Noca de Antônia) participaram da série “Pedra do reino”, exibida pela TV Globo. Leno Sacramento (Chico Canoa) e Sérgio Laurentino (o orixá Exu) estão no elenco de outra atração da emissora, “Ó pai, ó”.

Irandhir e Flávio contam que viver os vilões foi um desafio pessoal. “Foi muito bom, mas só depois que terminou”, brinca Flávio, que conta que a família teve seus problemas com um coronel no interior nordestino. “Meu avô sempre foi um pacifista, e me ensinou isso. Foi difícil encarar um personagem que era meu próprio inimigo”. Irandhir diz que “o difícil foi fugir da beleza da capoeira, ter que odiar algo que eu adoro”.



Orixás

Ao lado da capoeira – as cenas de luta são os momentos mais divertidos do filme – aparece também outra forte referência afro-brasileira, o candomblé. No filme, os orixás interagem com os outros personagens diretamente, com direito a uma cena de luta entre Exu e Besouro em uma feira. Tikhomiroff usa a expressão “forças da natureza” para definir os orixás, e os representa dessa maneira na tela, com fotografia e locações na Chapada Diamantina específicas para cada um deles.

A fotografia, assinada pelo equatoriano Enrique Chediak, é outro ponto forte do filme. “Escolhi um estrangeiro porque o olhar deles sobre o Brasil é sempre fascinante”, diz o diretor, citando o fotógrafo francês Pierre Verger como exemplo. Com cores fortes e tons acobreados, além de um equilíbrio de luz e sombra e bons movimentos de câmera, as imagens saltam da tela, e dão vida ao novo-velho mito brasileiro.

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